Portugal «está com a morte marcada»

18 11 2007

Cada mulher portuguesa tem, em média, 1,3 bebés, uma taxa de natalidade muito baixa, «sintoma de um sociedade doente» que não apoia os progenitores, defende o médico de saúde pública do Hospital de Faro Mariano Ayala.

«A sociedade portuguesa está a ter um comportamento suicida generalizado», considera Mariano Ayala em entrevista à Lusa em vésperas do Dia Universal das Crianças, instituído pelas Nações Unidas em 1954, que se assinala terça-feira.

O médico destaca que a baixa natalidade se regista um pouco por toda a Europa, o que levará à extinção dos povos europeus tal como são actualmente conhecidos.

«Portugal, com os portugueses de hoje, vai ter tendência a desaparecer», assegura o médico, que insiste em sublinhar que esta constatação não tem por base qualquer sentimento racista ou xenófobo, servindo apenas para advertir que uma baixa taxa de natalidade é sintoma de uma «sociedade doente» que não apoia os progenitores e as crianças.

Para manter a população portuguesa constante, as mulheres deveriam ter em média 2,1 bebés ao longo da vida, mas segundo os dados mais actuais do Instituto Nacional de Estatística (INE), esse valor não vai além dos 1,3 bebés.

«Um valor pavoroso», que sugere que o «país, tal como o conhecemos, está com a morte marcada», considera Mariano Ayala, que é também o responsável pela investigação do cancro da mama no Algarve e coordenador de um rastreio realizado nos últimos dois anos na região.

Dados do INE demonstram que desde os anos 30 do século passado a população portuguesa aumentou de sete milhões para mais de 10 milhões de pessoas, mas esta subida explica-se com o envelhecimento da população, pois a taxa bruta de natalidade diminui de 28 por cento em 1935 para 10 por cento em 2006.

Em 1976, a taxa bruta de natalidade já tinha diminuído para 20 por cento e, passados 10 anos, em 1986, já tinha descido para os 12,6 por cento.

Os dados provisórios de 2006 apontam para a taxa mais baixa de sempre: 10 por cento.





Estrada: vítimas esquecidas

18 11 2007

«Pensamos sempre que só acontece aos outros» é uma das expressões mais ouvidas quando a tragédia bate à porta. Em Portugal, a «desgraça» chega, vezes demais, ao volante. Todos os anos o terceiro domingo de Novembro é o dia escolhido para «não esquecer». Neste Dia da Memória, o Governo de José Sócrates associa-se pela primeira vez à iniciativa e a ACA-M lembra que mesmo depois de 70 mil vítimas, em mais de 30 anos, ainda não há apoios para quem «cá fica».

«Sou filha de uma pessoa que morreu. Fiquei órfã aos oito anos e nunca tive nada. Ou as pessoas têm seguro ou é difícil. Não há apoios psicológico para sobreviventes e familiares», explicou ao PortugalDiário Luísa Jacobetty, da Associação dos Cidadão Auto-Mobilizados (ACA-M).

A ACA-M e a Estrada Viva assinalam todos os anos o Dia da Memória e este ano congratulam-se com as iniciativas governamentais, no entanto, não deixam de apontar o dedo: «Esperamos agora que o Estado reconheça o Distúrbio Pós-Traumático de Stress como uma doença que afecta milhares de vítimas da Estrada, que aprove um Plano Nacional de Trauma e crie políticas interministeriais de combate a uma das maiores epidemias mundiais: a sinistralidade rodoviária».

Depois de um Outubro e Novembro negros, o Governo de José Sócrates lançou várias campanhas de prevenção rodoviária e acções de fiscalização que no seu conjunto pretendem «Acabar com o Drama». Luísa Jacobetty salienta que é a «primeira vez» que o Estado se associa a este dia, mas lamenta a forma como o faz. «Há campanhas, mas pouco mais. Os apoios aos traumas continuam a não existir. É um aproveitamento político», desabafa.

O pior distrito em 2007

O distrito de Santarém, que domingo acolhe as cerimónias nacionais do Dia da Memória foi o que registou maior aumento de vítimas mortais nos primeiros nove meses do ano, 76 por cento, disse fonte do Governo Civil à Lusa. Até Outubro registaram-se mais 24 mortes do que durante o mesmo período de 2006, num total de cerca de 60 mortes resultantes de colisões, despistes e atropelamentos.

O número de acidentes no sublanço da auto-estrada do Norte Santarém/Torres Novas, em obras para alargamento para três vias, registou um acréscimo de acidentes. A partir dos dados recolhidos, o Governo Civil de Santarém está a preparar uma base de dados que vai identificar as intervenções necessárias, tanto em zonas urbanas como nas estradas.

Ano histórico

Em 2006, Portugal conseguiu um resultado histórico nas mortes ao volante. As autoridades registaram menos 27 por cento de vítimas mortais em comparação com o ano anterior. Números que fizeram de Portugal o segundo país da UE com melhores índices. Um resultado conseguido em parte devido ao aumento das patrulhas de fiscalização na estrada, à introdução do pagamento das multas na hora, ao aumento do preço do combustível e até a uma melhoria do comportamento na estrada.

Em 2007, o ano decorreu com alguma «normalidade» até ao Verão, mas a pouco e pouco os acidentes graves foram subindo as estatísticas e sobretudo a violência. Os acidentes com pesados e os atropelamentos fatais relembraram o país que esta é uma «guerra nossa». Longe de estar ganha.

Até 11 de Novembro, os acidentes de trânsito fizeram 756 vítimas mortais, mais 46 do que em igual período de 2006, segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ASNR).Durante o mesmo período, registaram-se 2.690 feridos graves (menos 339 do que no período homólogo de 2006) e 36.544 feridos ligeiros (mais 1.232). Segundo dados da ANSR, entre 2002 e 2006 morreram nas estradas portuguesas 5.904 pessoas. Este número de mortos não inclui os muitos feridos graves que depois acabam por morrer nos hospitais.

Este domingo haverá uma mobilização geral das forças de segurança e dos bombeiros para uma campanha de «tolerância zero», que passará pelo controlo de velocidade e por testes de alcoolemia, visando conseguir a ausência de qualquer acidente grave nas 24 horas de domingo.