A velocista norte-americana Marion Jones, considerada a melhor atleta feminina do mundo por um largo tempo, admitiu ter usado um esteróide indetectável durante dois anos, inclusive no período de preparação para os Jogos Olímpicos de Sydney 2000, competição em que conquistou cinco medalhas: três de ouro e duas de bronze.
A confissão de Jones consta de uma carta que a atleta enviou para familiares e amigos próximos, cujo conteúdo foi transmitido ao “The Washington Post” por uma pessoa que possui uma cópia. As informações dessa carta foram confirmadas ao jornal por outra fonte, conhecedora dos problemas jurídicos que a velocista enfrenta – apresenta-se hoje num tribunal de Nova Iorque para responder por três crimes de falso testemunho a agentes federais, relativo a uma investigação relacionada precisamente com a sua ligação ao mundo da dopagem.
Marion Jones afirma nessa carta que começou, em 1999, a tomar tetrahidrogestrinona (THG), um esteróide sintético desenvolvido pela BALCO (Bay Area Laboratory Co-Operative), empresa californiana que oficialmente produzia suplementos nutricionais, e que esteve na origem do maior escândalo de doping de sempre no atletismo dos EUA.
A THG era fornecida à velocista pelo seu treinador, Trevor Graham, e este apresentava a substância como um complemento nutricional, indicando-lhe que devia tomá-lo colocando duas gotas debaixo da língua. Jones afirma que não sabia que se tratava de um dopante, “porque confiava [em Graham] e nunca imaginou isso sequer por um segundo”. Apenas soube quando, em 2002, deixou o campo de treino do técnico, mas a velocista admite que deveria ter ficado alertada quando Graham lhe pediu para não falar com ninguém sobre o suposto suplemento.
A tetrahidrogestrinona foi indetectável pelos laboratórios antidopagem até 2003, altura em que Graham enviou, de forma anónima, uma amostra para a Agência Antidoping dos EUA (USADA), denunciando a BALCO (Graham já tinha quebrado a sua ligação ao esquema baseado no esteróide sintético, mas continuava a perder atletas para a empresa californiana).
Vários atletas punidos, Jones resistiu
A reanálise de amostras de urina armazenadas levou à punição de vários atletas conhecidos, entre os quais Regina Jacobs, recordista e bicampeã mundial dos 1500 metros em pista coberta. A colaboração com outras autoridades federais levou à descoberta de mais crimes cometidos por membros da BALCO e provas obtidas nesse inquérito permitiram penalizar atletas sem que estes tenham registado testes positivos, algo inédito até essa altura.
Vários velocistas foram visados nesses processos inéditos, entre eles Tim Montgomery (perdeu o recorde mundial dos 100m devido a este caso), mas Marion Jones conseguiu sempre resistir à pressão da USADA, a quem faltavam provas para vencer em arbitragem a estrela olímpica. E Jones sempre negou ter-se dopado, inclusive quando o presidente da BALCO, Victor Conte Jr., disse publicamente que forneceu THG à atleta.
Marion Jones explica na carta que, em 2003, quando foi interrogada por agentes federais, negou ter usado o “the clear” (no esquema de dopagem, a tetrahidrogestrinona era conhecida por “the clear”, o límpido), apesar de, quando lhe apresentaram uma amostra, ter afirmado que usou essa substância no campo de treino de Graham. Jones também mentiu a agentes federais acerca de um cheque que Montgomery, seu ex-marido, lhe passou, isto num outro inquérito, sobre um esquema de fraude bancária e lavagem de dinheiro em que o ex-recordista mundial esteve envolvido.
Em ambos os casos, a atleta diz que entrou “em pânico” e mentiu para não ver o seu nome associado a confusões. Agora, deverá cumprir três meses de prisão (o máximo seria seis), segundo admite a própria. “Lamento por ter-vos desapontado de tantas maneiras”, diz Jones na carta enviada a familiares e amigos.
A nível desportivo, pelo menos as medalhas que conquistou em Sydney 2000 estão em risco, pois as desclassificações nos Jogos Olímpicos podem ocorrer até oito anos após a competição. Na Austrália, a norte-americana venceu as provas dos 100m, 200m e 4×400m, e foi terceira nos 4×100m e no salto em comprimento. A desclassificação implica o mesmo para as outras norte-americanas que fizeram equipa com Jones nos 4×400m e 4×100m.















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